quinta-feira, novembro 30, 2006

Comemorando!

De uns tempos pra cá - o blog - nasceu há um ano. Nasceu assim, sem muito planejamento, com o simples intuito de contar histórias aos amigos.
Nesses doze meses, muitos assuntos rolaram por suas páginas. Foram noventa postagens. Coisas do meu cotidiano.
Shows e acontecimentos musicais formam grande parte desse acervo de idéias, notícias, fotos e outros tipos de registro. Temas relacionados com Chico César predominaram, claro!
Mas outros artistas também tiveram seu lugar: Maria Bethânia, Rubi, Rita Ribeiro, Ceumar, Lenine, Zeca Baleiro, Kléber Albuquerque.
De vez em quando, um assunto do dia-a dia, como aquele em que contei da salada que Ana e eu preparamos. Ou outro no qual mostro uma foto de minha mais tenra infância, numa de minhas primeiras viagens.
Viagens! Esse foi o tema que mais apareceu nesses 365 dias de blog. Narrei viagens atuais e antigas.
Algumas dessas histórias foram contadas no calor da hora, em algum cybercafé do mundo, outras revivendo memórias e cheiros de dias passados pelo mundo afora.
Amigos - novos, antigos, conhecidos e até desconhecidos - apareceram pra ler e comentar. João, Fernanda e Juliana voltaram muitas vezes. Caroline, Shandy e Leo também. E outros, muitos outros, que registraram sua presença através de algum comentário ou que passaram por aqui sem deixar palavra alguma mas que deixaram seu rastro de perfume virtual. A todos os que me deram notícia de sua passagem por aqui, meu agradecimento em forma de álbum fotográfico:

O álbum, gente, se foi! Estava hospedado num tal de slide.com, que virou poeira virtual! Acontece... Peninha, né? 

Aos que passaram secretamente, meu agradecimento também secreto!
A verdade é que gostei de minha experiência como "blogueira".
De uns tempos pra cá segue.
E como presente de aniversário ganhou um contador de visitas. Está bem aí, na margem esquerda, abaixo dos links direita, abaixo dos marcadores. Será a testemunha secreta das visitas identificadas ou anônimas.
A partir de hoje, ninguém será esquecido!

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Atualizado em 02/12/2013

sábado, novembro 25, 2006

Ribeira do Pombal, eu fui!


Taí, Ana e eu estivemos em Ribeira do Pombal/BA, no fim de semana anterior a esse em que escrevo.

Como chegamos lá?
É uma longa história.
E na raiz dela está... Chico César.
Lá pelo meio de agosto do ano passado, recebi um recado pelo orkut de uma pessoa chamada Licia. Eu já a "conhecia" das comunidades do Chico, mas nunca havíamos "conversado". Ela me convidadava para fazer parte de uma nova comunidade, criada por ela: Chico César - o poeta, cuja descrição é a seguinte:
  • Esta comunidade é para quem além de escutar, lê o que Chico escreve. Aqui poderemos discutir questões literárias que aparecem em seus poemas, bem como sobre questões sócio-culturais por ele abordadas. Vamos usar este espaço para nos informar, conhecer, ampliar, distrair, discordar, concordar, enfim... nos conhecermos em torno desta cabeça pensante: FRANCISCO CÉSAR
Gostei da idéia e aceitei o convite. Daí pra frente Licia e eu começamos a nos corresponder. Primeiro por recados no orkut, depois por e-mails.
Inicialmente falávamos de Chico: ela queria trabalhar com alguns aspectos da obra dele num projeto de mestrado para a UFBA. Eu tinha algum material coletado aqui e acolá que poderia ajudá-la. Começamos a "trocar figurinhas".
Quando demos pela coisa, já estávamos falando de nossa vida pessoal, festas, compromissos sociais, família, viagens, amores, desamores. Mais um pouco e já estávamos trocando opiniões, alegrias, tristezas, expectativas, presentes, fotos, livros.
Até que chegou a oportunidade do primeiro encontro: Janeiro de 2006.
Ana convidou Licia para participar de um pequeno trabalho aqui em São Paulo. Proposta indecente: Licia mora em Salvador... Ela aceitou! Veio. Ficou aqui em casa.
Foram uns 10 dias de muito trabalho - para Ana e Licia - e muita agitação para nós três. Não paramos em casa. Shows, compras, restaurantes, encontros com amigos...
Conosco Licia conheceu Rubi. E o rapaz ganhou mais uma fã ardorosa.
Por esse tempo, Chico estava fazendo show de lançamento de seu CD De uns tempos pra cá. Lá fomos nós: três noites seguidas. Numa das vezes, uma equipe de filmagem tomava as primeiras cenas para o que viria a ser uma parte dos extras do primeiro DVD do moço. Lá estávamos nós, levando Chico no peito:


Parece que o grupo chamou a atenção da equipe. Perguntaram nossa opinião sobre o novo show. Todas falamos. O depoimento de Licia foi escolhido e figura em "Conversa" no DVD Cantos e encontros de uns tempos pra cá. Pessoa de sorte, eu estava ao lado dela na hora H...
Licia voltou pra casa, sua família, sua Salvador. Voltamos à correspondência virtual e física.
O mestrado na UFBA não rolou. Licia foi convidada para dar aulas numa Faculdade no interior da Bahia: Faculdade Regional de Ribeira do Pombal. Retribuiu o convite do início do ano, indicando Ana para uma palestra na Jornada Acadêmica da tal Faculdade. E lá fomos nós!
Alvinho, o marido de Licia, nos recebeu no aeroporto de Salvador e nos levou de carro até Ribeira do Pombal.
Além do trabalho, aproveitamos para conhecer Ribeira do Pombal e sua feira semanal.
Foi uma experiência emocionante. Vejam algumas cenas:


De volta, passamos por Caldas do Jorro e não resistimos a colocar nossas mãozinhas debaixo da água a 48°, em plena Praça Ana Oliveira...


Chegamos a Salvador ao entardecer do dia 17 de novembro. Fomos direto para a casa de Licia, em Itapoã. Hora de conhecer Dona Margarida, Layune, Maria Clara, Pedro, Bruno, Ametysta e Pérola.
O dia seguinte foi cheio: teve Lagoa do Abaeté, caruru completo preparado por Dona Margarida - mãe de Licia, pôr-do-sol em Itapuã, passeio pela cidade e acarajé da Cira.

E tem gente que diz que a internet isola as pessoas.

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Atualizado em 02/12/2013

terça-feira, novembro 21, 2006

IDADE DO GELO

"O meu irmão, o Gegê,(...) É militante do movimento social desde o fim dos anos 60. Uma espécie de herói real pra mim. Ele que me ajudou a formar minha consciência. Por causa dele é que sou menos alienado do que poderia ser, atuando numa área cheia de glamour e mentira que é essa do entretenimento. "

Com essas palavras, Chico César respondeu à pergunta de um jornalista que o entrevistava para o Jornal "O Povo", de Fortaleza, no início de novembro.
A entrevista completa pode ser lida clicando no link:
O Povo

Mostrando mais um pouco do seu talento, Chico escreveu para a Revista Globo Rural desse mês, uma bela crônica:

IDADE DO GELO

Caçula, com apenas um irmão homem(15 anos mais velho que eu) e com cinco irmãs mulheres, cresci mimado por elas, minha mãe, a tia tia solteira que morou toda a vida conosco, umas outras tantas tias e as primas sem contar a madrinha de batismo e algumas de fogueira, as vizinhas. Do colo de uma pro colo de outra. Estavam sempre me dando banho, às vezes esfregando-me os calcanhares com caco de telha ou as costas com sabugo de milho. O que era motivo de chororô. Mas tinha de estar limpinho e cheiroso, o bichinho, elas diziam. E aí me penteavam os longos cabelos cacheados com trim e até punham grampos, que chamavam frisos, e armavam uma rodilha que cobriam com um lenço estampado.
Era muito riquefife em torno do neto mais novo, que podia até ficar mofino como o carneiro enjeitado seu amigo ou mesmo amulherado. Meu avô, João Boágua, pai de minha mãe, então me levava em suas incursões pela vazante, onde agora estávamos, para ouvir seus longos silêncios ou os curtos comentários ditos como se pensasse alto ou falasse sozinho sobre os nós das macaxeiras, a doença das batatas ou uma querência por terras no sítio Boágua que lhe deu o nome que eu não herdei. Sem que nem mais levantou a vista em direção à estrada e divisou uns jipes verde-oliva e outros, cor de cáqui, descendo devagar a ladeira. "Seu irmão", ele disse. "Estão trazendo Luís pra casa. Vamos, vamos. Corre, menino, que soltaram ele". Quede vô? Ali mesmo largou o enxadeco e saiu correndo. Eu atrás.
O homem de gestos lentos amadurecidos pelo artesanato dos anos parece que ganhou asa nas sandálias currulepe. Slep slep slep slep. Os torões e a maniva, a cancela, eu fecho? Slep, a areia do corredor coberto pelas canafístulas, o terreiro de mãe Cristina, slep slep slep, o cachorro de madrinha Toinha, sai prá lá gozo nojento, slep, espera vô, slep slep, corre menino mole que Luís voltou, o altinho esburacado e escorregadio, slep. A casa de Eva à direita, a casa da tia Vitalina à esquerda, alugada. Dobramos à esquerda esbaforidos.Os jipes já estavam parados na estrada de terra em frente à casa de dona Lulu.
"Ligeiro, menina, uma de vocês aí e vai avisar seu pai no roçado", ordenou minha mãe, depois de abraçar meu irmão e dispensar os conselhos dos meganhas sobre os perigos do comunismo. Aí foi só festa. E haja chegar gente. Meu pai chegou. E radiola, discos, bebida de adulto. E guaraná, grapete, fanta. Gelo em baldes grandes, que não tínhamos geladeira nem eletricidade. Chegam sanfoneiro, zabumbeiro, ritmistas. Gente que batucava nos tamboretes de couro. E haja tocar Trio Nordestino, Elino Julião, Noca do Acordeon, Luiz Gonzaga, Marinês, Paulo Sérgio, The Fivers. E toca a fazer comida pra gentarada toda. Povo da cidade e dos sítios vizinhos.
Foi a primeira vez que vi gelo. Peguei duas pedras. Uma em cada mão e fiquei zanzando em meio à balbúrdia dos adultos. Aquela era mesmo uma sensação nova pra mim, ardia e aliviava ao mesmo tempo. Era pedra e eu bebia. Era água e eu, firme, segurava entre os dedos. Era quente e frio. Vez em quando encontrava o olhar de meu avô, também um pouco à parte, sentado num cepo, ralando fumo num canto com um canivete lá só dele. Me fitava cúmplice. Tínhamos conseguido correr da vazante até em casa. E eu também era um Boágua, mesmo mirrado e sem o nome. Um Boágua, daqueles pretos orgulhosos, do lugar Jenipapeiro.

Globo Rural- Novembro 2006 - pág. 114


terça-feira, outubro 31, 2006

Balada Literária

Domingo, 22 de outubro.
Livraria da Vila.
Balada Literária.

Idealizador, Marcelino Freire
Mesa com José Miguel Wisnik e Chico César.
Mediador, Claudiney Ferreira.
Homenageado, Glauco Mattoso.
A primeira palavra foi dada a Chico César. E ele anunciou que ia "declamar" o poema Altazor, do poeta chileno Vicente Huidobro. Disse que tinha em mãos a versão original, em espanhol, mas que faria uma tradução simultânea.

"Ensaiou" com o público um refrão cheio de ais e uis:
  • Ai, aia, aia, ia, ia, aia, ui.
E, enquanto nós rezávamos esse mantra, ele fazia outros sons, desconexos.
Fiquei curiosa e procurei Altazor na net. É um longo poema...
E qual não foi a minha surpresa ao ver que lá pelo Canto IV e VII, há realmente algo parecido com o refrão que repetimos indefinidamente enquanto Chico fazia sua performance.
A escolha do poema foi uma homenagem a Maria Alzira Brum, antiga colega de trabalho dos tempos da Editora Abril, hoje amiga e editora, que estudou o Altazor em um trabalho acadêmico.
Alzira é também cúmplice de Marcelino Freire na realização da Balada Literária.
Wisnik falou sobre palíndromos - palavras, frases ou números que têm o mesmo sentido se lidas da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda.
Ele nos contou que sua filha, Mariana, e alguns colegas de escola se dedicam a escrevê-los e os trocam entre si.
Alguns palíndromos citados por Wisnik:
  • Lá vou eu em meu eu oval
  • Ô mãe, tu era réu, te amo
  • Ô padre, meu, que merda, pô
  • É de fato xoxota fede
Ao se referir a um palíndromo feito por Chico Buarque, Wisnik confundiu-se. Ana foi em seu socorro com o tal palíndromo na ponta da língua: até reagan sibarita tira bisnaga ereta.
E a manhã foi rolando, cheia de surpresas. Chico confessou que já quis fugir com uma mulher do circo, contou as circunstâncias de sua chegada a São Paulo e de seus primeiros tempos na paulicéia desvairada e até cantarolou uma parceria entre ele e Glauco:
Soneto Panorâmico
Meu quadro de São Paulo é o duma ilha
que quanto mais se atulha mais brilha.
q
É vasta e de longe se avista,
mas de perto tem a face
dupla, múltipla, mista.
q
Quem topa suar
tem campo à pampa,
pois Sampa trampa
do sol ao luar.
q
Na avenida Paulista
trombadinha quando nasce
contrasta com torres, contrista.
q
No centrão a janela faz pilha,
muralha ante a gentalha maltrapilha.
uuu
Fernanda, Ana e eu registramos os momentos em que Glauco Mattoso dizia dois de seus poemas. Está tudo no Youtube:
Registrei também a resposta de Chico a uma das perguntas feitas pelo público. A questão era: como viam a exposição decorrente do trabalho artístico.
Enquanto ele falava, passei a câmera por todo o público. Achei que ficou interessante.

Pra saber mais sobre a Balada Literária, clique aqui.

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Atualizado em 02/12/2013

segunda-feira, outubro 23, 2006

Na Fnac Pinheiros - mais registros

No telão Chico cantava Outono aqui, versão brasileira feita por ele para a música Autumn leaves - les feuilles mortes, de Joseph Kosma, Jacques Prevert e Johnny Mercer:
Caiu a flor
As folhas caem
Tem outra cor
Triste demais

Eu caio em mim
Sinto que assim
Começa o fim
Do amor que vai

Outrora o céu sorriu
Com o sol que em nós se abriu
Fosse setembro, abril
Era feliz

Hoje o outono mora aqui
Será que há de passar?
Quem me diz?

Como surgiu a idéia de fazer essa versão e gravá-la nesse momento?
Chico explica: tudo começou quando ele ganhou uma bolsa de estudos para o CLAM - Centro Livre de Aprendizagem Musical - escola de música dirigida pelo Zimbo Trio.

Cálice, de Gilberto Gil e Chico Buarque, também foi uma das músicas selecionadas pelo mediador para nos mostrar. A interpretação que Chico dá a essa música está bem distante daquela que ouvimos nos anos 70. A música começa com um clima religioso, passa pelo rap e recebe até uma inserção sonora do disco Araçá azul, de Caetano Veloso.

E Chico nos conta como encara a responsabilidade de interpretar músicas alheias:

"Quando você é autor, quando você é compositor, dificilmente você pega uma música de outra pessoa e faz um quase-cover. (...) Nasce um pouco um sentimento como se fosse uma inveja positiva: Puxa, eu queria ter feito essa música! (...) Mas se eu tivesse feito essa música, eu faria diferente. (...) Isso é sempre presente na releitura que eu faço. A minha versão de Paraíba, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, passa por aí. A minha versão de Alma não tem cor, do André Abujamra passa por aí também."

Mais adiante, respondendo a uma pergunta do público, Chico voltou ao assunto:

E por aí foi o rumo desse agradável encontro de 17 de outubro de 2006, na Fnac Pinheiros.

Ouça e veja o DVD todo, atenta e calmamente. Ele é lindo!

Uma dica: quando vir a parte do concerto, fique atento, depois dos créditos ainda há cenas interessantes. Não vá desligando rapidinho!