Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

Presente só porque é Natal...

... tô fora!
Ou melhor, tô querendo ficar de fora.
Já venho pensando nisso há algum tempo.
Presente de Natal, presente de aniversário, presente de viagem...
Quando fiz 50 anos, ensaiei uma novidade: pedi aos meus amigos, que me acompanharam nas 5 festas que fiz naquele então, que não trouxessem presentes e que doassem um valor qualquer para um hospital cujo nome e número de conta eu forneci a eles. Parece que o povo gostou. Pelo menos "obedeceram".
Ano passado, combinei com uma amiga - e toda sua imensa família, por extensão - que aboliríamos entre nós os presentes de aniversário e Natal.
Vigorou!
Em 2009 nos presenteamos apenas com flores nos aniversários.
Fiquei de discutir essa questão com os amigos durante 2009, para que, ao menos no Natal, pudéssemos deixar pra lá essa troca, muitas vezes formal, de presentes.
O tempo passou... Não falei no assunto. Esqueci.
Agora estamos aqui, beirando a noite natalina, e cada qual pensando no tal do presente, presentinho, presentão...
Eu, inclusive!
E as lojas apinhadas de gente!
Começo agora então a campanha anti-presentes com data marcada.
Bom é dar e receber um presente que tem seu significado.
Uma coisa assim: você viu algo que tem a "minha cara" e quer me presentear com isso. Ótimo! Compre o mimo e me dê a qualquer momento. Ou mesmo guarde pra me dar no dia do meu aniversário... ou no Natal.
O chato é sair pelas lojas abarrotadas - ou não - em busca de um presente de aniversário ou de Natal.
Tá viajando. Viu algo bonitinho - e fácil de carregar - que poderia me agradar. Traga, sim! Mas não perca suas preciosas horinhas rodando no relógio a peso de dólar, euros ou outra moeda qualquer, procurando uma lembrancinha local pra me trazer. Vou gostar mais de saber das suas aventuras e de ver suas fotos.
Prometo fazer o mesmo em relação a vocês, meus amigos.
Topam?

Domingo, Dezembro 13, 2009

Agora sim, o último capítulo...

Bem, quem segue as minhas histórias por aqui, deve se lembrar do episódio das cadeiras da Tok&Stok que comprei em setembro.
Faço um resuminho mais que rápido: os braços das tais cadeiras estavam esfolados. Depois de muita novela, foram trocados por outros um pouco menos esfolados e ficou prometido para o dia 12 de dezembro um novo contato para mais uma troca de braços... ou seria uma queda de braço?
Bem, eu já tinha dado o caso por encerrado. Já fazia olhos baços para para os braços...
Foi então com surpresa que recebi um telefonema do vendedor Gabriel Bornay no dia 7 de dezembro. Pasmem, ele dizia que esteve de férias mas não esqueceu do meu caso. E propunha uma troca, não dos braços mas das cadeiras, por um outro modelo, levemente superior ao das anteriores, sem nenhum custo.
Fiquei de passar na loja para ver o novo modelo.
Apareci lá no mesmo dia. Gostei da cadeira e aceitei a proposta.
A entrega ficou marcada para a sexta-feira, 11 de dezembro.
Chegaram!
A superioridade das novas cadeiras é bastante sutil. A diferença mais perceptível é no encosto reclinável que as anteriores não tinham.
Confesso que prefiro o encosto fixo...
Talvez o acabamento seja um pouco melhor.
Mas acho as primeiras mais estilosas. Avaliem:
Mas a melhor notícia ainda não contei: os braços das novas cadeiras também vieram esfolados!!!!! Olha só:
O que será que acontece? Karma?
Notei antes da montagem. O montador acenou com a possibilidade de voltar com o produto... Declinei. Fui vencida pelo cansaço.
E assim, enfeitadas para as festas de fim de ano, aí estão nossas novas cadeiras da Tok&Stok:

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

4º aniversário do blog - parte III

Olha aí, é só anunciar que tem bolo que os convidados aparecem...
Agora chega Ana Maria, aquela da Psiulândia e de tantas jornadas pela vida afora...
Vem com armas e bagagens para mais uma ranzinzice.
Vamos lá!

Eu sempre escrevo textos ranzinzas e rabugentos para o meu blog. Agora eu queria escrever um alegrinho, pra comemorar os 4 anos do seu, mas acho que o uso do cachimbo entortou mesmo a minha boca! Assim sendo, mando para o seu blog um textinho de reclamação: é uma historinha, mas é de autora rabugenta! Começa assim:

Era uma vez um viaduto, o Paraíso:

Embaixo dele, passa a 23 de maio:

Numa beiradinha do viaduto, quase caindo na avenida, algumas pessoas foram construindo casinhas. Virou uma vilinha, com portão na frente, número e até um grafitti na entrada:

Um belo dia, a prefeitura de São Paulo se incomodou com aquela vilazinha clandestina e resolveu destruir tudo. De um dia para o outro, as pessoas foram expulsas e as casinhas foram demolidas. Tudo em nome da limpeza e da segurança da cidade!

Ficou muito melhor agora, vejam só:

E até mesmo grafiteiros andaram passando por lá, deixando sua marca nas ruínas:

Como todos podem ver, ficou muito mais bonito, limpo e seguro para todos os cidadãos de São Paulo! Obrigada prefeito!

4º aniversário do blog - parte II

Como eu disse, espero visitas...
Não só aquelas - quase 16.000 - que aparecem pra ler e, eventualmente, comentar uma ou outra coisa sobre as viagens, shows e histórias tristes e alegres que habitam essas páginas ao longo 4 anos.
Espero visitas participantes, que queiram escrever algo para ser postado no blog aniversariante.
Até agora, só apareceu Carlos e sua Mulher-aranha .
Fiz um bolo de milho e aguardo mais convivas pra comer um pedacinho dele por aqui...

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

4º aniversário do blog - parte I

No próximo dia 30, esse blog completará 4 anos.
A exemplo de outr@s blogueir@s que vi pelo espaço internáutico nos últimos tempos, decidi comemorar abrindo espaço para quem quisesse publicar algo aqui.
Faz alguns dias que estou divulgando essa ideia no Twitter, no Orkut e no Facebook.
Hoje chegou o primeiro texto: Mulher-aranha
Veio do Carlos, amigo novo, pra quem escrever é coisa do dia-a-dia.
Aí está! Divirtam-se!

Mulher-aranha

Carlos Eduardo Bezerra

Ela pedia esmolas numa ponta de cruzamento. Ajudada por um menino, descia do ônibus que a trazia da periferia ao centro da cidade. Com dificuldades, sobre um carrinho de rolimã, atravessava a larga avenida para chegar ao seu posto de trabalho.

Entre baixar e levantar o braço para um ou outro carro, esperando que uma moeda, e raramente uma cédula, lhe caísse nas mãos, observava um fato inusitado. Que seria aquilo? Por alguns dias, manteve-se atenta aos acontecimentos, cuja repetição a intrigava. Estava tomada por um misto de curiosidade e indignação.

Às vezes, esquecia de estender o braço e uma moeda rolava pela avenida, perdendo-se no movimento intenso de carros ou sendo engolida pelo esgoto. Lamentou a perda da única cédula da semana, que saiu batendo asas, rápida feito um beija-flor.

Conseguiu entender o caso, que lhe tirava atenção e fazia com que deixasse de se defender dos carros. Arre, louco! Vai atropelar a tua mãe, maldito! Aprendera a defender-se com a língua. Estava sempre pronta a responder aos desaforos dos motoristas e pedestres mais arrogantes.

Descompunha, resmungava, desferia farpas, lançava pragas e, ressaltando uma das marcas do seu rosto, queimado pelo sol, dizia enfática: com mulher de bigode nem o diabo pode! Impunha-se da forma que lhe era possível: aos berros. Quando não era possível gritar, pensava: que uma carreta passe por cima de sua cabeça!

Mas o perigo não importava. Precisava compreender o fato e isso ela já o fizera. Estava certa do que via, era aquilo mesmo e ninguém a chamaria de louca. Pensou em chamar os meninos que vadiavam pelo largo só para confirmar o fato, mas se lembrou que eles podiam acabar estragando tudo.

Depois, pensou em chamar o menino que lhe ajudava, porém achou melhor que ele ficasse atento ao dinheiro, pois assim teria menos prejuízo. Mas quem eu chamaria? Pensou em chamar a polícia, no entanto considerava ainda cedo demais. Não podia atirar a esmo.

Passou a chamar os conhecidos que transitavam pelas calçadas. Todos os dias, cumprimentavam-na com um aceno de cabeça, com um adeus. Alguns davam-lhe água, bolachas, um cafezinho apesar do calor infernal. Outros ofereciam-lhe comida, geralmente restos do almoço ou da janta. Trouxe para você, é coisa boa. Prova! Agradecida!

Apesar da fome, desconfiando que aquilo não era coisa certa, colocava de lado dizendo sempre que ia esperar a fome aumentar. A mãe, que ela perdera ainda criança, costumava dizer que quando a fome é grande a comida é mais gostosa.

Quando a bondosa alma lhe virava as costas, ela oferecia a iguaria ao primeiro menino que aparecia por aquelas bandas, livrando-se de ter os seus trocados roubados. Menino, menino, toma pra tu, é comida boa que uma madame de carro me deu! Tão logo o menino saia pensava consigo: tolo! Ria-se. Livrei-me da comida e de ter o meu dinheiro roubado por este moleque. Deus é mais! Persignava-se.

No dia seguinte, chamou uma moça que, apressada, não lhe deu atenção. Tudo bem, depois vai querer saber e eu não te conto, maldita! Chamou um rapaz que só fez cara de e-eu-com-isso e foi pegar o ônibus. Chamou uma senhora e como resposta só escutou: Perdoe, minha filha, que hoje não tenho trocado nem pra missa.

Na verdade, a senhora toda de branco já estava atrasada para a missa das treze horas do dia 13 na igreja de Fátima. Conseguiu a atenção de uma outra mulher e relatou tudo o que vira até o momento. Você imagina isso?! Quer dizer que todos os dias... Todos os dias, minha filha! Todo santo dia ele vem e tome...

Chamou o mecânico que trabalhava no meio do quarteirão e ele trouxe também a turma da borracharia. Indignado, afirmou: duvido que faça isso comigo! Olha aqui o que eu tenho... Fez questão de mostrar a ferramenta... Todos, animados com o jeito acanalhado do mecânico, caíram na gargalhada.

Passaram-se mais alguns dias e todos os amigos do pedaço sabiam do fato. O comentário corria feito rastilho de pólvora. Não havia boteco, casa de morada, pensão, ponto comercial que não soubesse do que se passava no cruzamento. Mas nenhuma providência era tomada. E pensou: o que fazer?

Já sabia que uma madame observava tudo da janela do seu apartamento e que as empregadas dos prédios vizinhos não falavam em outra coisa. Talvez a madame telefonasse para a polícia denunciando.

Ela mesma, como costumava dizer voltando o dedo indicador para si e repetindo o nome inteiro, ela mesma, Maria das Dores, não podia fazer nada. As pernas secas, couro e ossos cruzados em eterna posição de lótus davam-lhe o aspecto de uma aranha, que se movia graças ao carro de rolimã.

De longe, Dasdô, como era mais conhecida no pedaço, parecia um monge budista eternamente entoando mantras. Pela aparência, apelidaram-na de mulher-aranha, que, por ironia da vida e maldade da humanidade, não escalava prédio, não saltava, não corria, sequer andava. Era bem diferente de Peter Parker.

Não sabia de fato o que fazer. Totalmente tomada de curiosidade e indignação estava perdendo dinheiro. Em casa, o pai e o irmão, ambos bêbados, que viviam do que ela trazia do cruzamento, estavam reclamando da queda dos lucros. Os lucros caiam e as reclamações e humilhações aumentavam em casa.

Dane-se! gritou. Vou é tomar conta do meu ponto, porque a barriga não fica vazia sem doer. Assim, resolveu ficar atenta ao trabalho e tomou o fato como o seu momento diário de diversão. Os incomodados que dessem o seu jeito. Quem quiser que se defenda, pois eu, euzinha aqui tenho que garantir o pão de cada dia. Cada um que se livre como puder.

Apenas guardava o caso consigo. E o fez de tal modo que depois de passado algum tempo já não se sabia ao certo o que ela via. Passou a misturar os fatos. Juntava pedaços de histórias numa confusão tremenda que fazia tudo parecer mais invenção de sua cabeça, que voava livre, bem diferente do corpo com as pernas sempre atadas como num eterno nó.

Com o passar do tempo, buscando contar o que acontecia aos que se interessavam por ela e pelo seu caso foi transformando tudo. Todos os dias aumentava ou diminuía o ocorrido, criava nomes, ressaltava detalhes e ninguém mais sabia ao certo do que ela estava falando. Mesmo assim achavam engraçado que aquela mulher, presa à sua condição de “super-herói”, fosse tão criativa e divertiam-se com isso.

De repente, ela parou de contar o que via no outro lado do cruzamento. Foi-se modificando. Era a mesma, mas era diferente. Era a mesma mulher-aranha, o mesmo monge budista sentado em posição de lótus entoando os seus mantras, mas agora parecia diferente.

Maria das Dores perdeu o sentimento de indignação ou alimentou-se tanto dele, que ele já não lhe aparecia no rosto, na fala rasgada de nordestina beradeira. Na maior parte do tempo, ela parecia uma estátua chinesa de porcelana: fria e comportada.

De fato, o que acontecia lá do outro lado do cruzamento ninguém sabia. Mas ela sabia. Ela sabia e guardava para si. E guardava como alguém que guarda o único presente recebido na vida. E isso servia para que soubessem que ela era alguém, pois quem tem um segredo ou recebe um presente é sempre importante. Só ela sabia o que ninguém sabia ao certo.

E num dia comum de trabalho apenas lamentou: será que ele não vem hoje, meu Deus?! E daí em diante ficou muda para sempre, apenas acenava com as mãos, um aceno educado de miss, de rainha. Acenava e segurava as moedas jogadas dos carros. A voz acabou-se na última frase: será que ele não vem hoje, meu Deus?!