quinta-feira, dezembro 20, 2007

Voltando às origens

Era aniversário do Centro Cultural São Paulo. 25 anos.
Dentre as muitas comemorações: um show de Chico César.
A história de Chico com o CCSP é antiga.
Numa entrevista a Flávia Ragazzo ele fala desse lugar onde iniciou sua carreira paulistana:
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FR – Que papel o CCSP desempenha na sua história profissional?
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CC – O primeiro show que eu fiz em São Paulo foi no CCSP, na sala Adoniran Barbosa. Era um show que ia se chamar Pentelho Luminoso, mas logo entrou o Jânio Quadros e os diretores ficaram com medo, pediram para mudar o título. Aí a gente mudou para Pastoril do Velho Fascista, em homenagem a um político de então. Este foi o primeiro espaço que me fez sentir que eu seria um artista bem vindo na cidade. Creio que isso aconteceu com muitos outros músicos, como Vidal França e Paulinho Pedra Azul.
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FR – Como foi a receptividade do público nas suas apresentações aqui?
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CC – Foi muito boa. Essa proximidade, a possibilidade de levar crianças, sentar, ficar passeando ali embaixo, brincando, vendo o show ou subindo no palco é muito bacana. Essa coisa de o palco ser baixinho cria um olho no olho que a maioria dos palcos não permite, porque é sempre uma coisa verticalizada, o artista em cima e a platéia em baixo. Eu acho que é o espaço ideal pra ter esse tipo de encontro informal, improvisado.
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FR – Qual a importância do Centro Cultural São Paulo para a cidade?
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CC – O CCSP tem um papel histórico em São Paulo. É um ponto de encontro de artistas, de gerações. Sempre foi um espaço muito democrático, aberto para a poesia, a dança, a fotografia, as artes plásticas em geral, para o teatro. É um lugar muito bacana, com muita história. A cultura é algo dinâmico, vivo, feito e refeito cotidianamente. O CCSP, independente dos eventos que realiza, possibilita encontros, é um ponto onde artistas alternativos se reúnem para tocar violão e trocar versos.
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FR – Como se sente fazendo parte das comemorações dos 25 anos da instituição?
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CC – Fico muito feliz de ter tido aquela primeira oportunidade de tocar em um espaço tão bacana. E fico muito lisonjeado de ser lembrado para participar dessas comemorações, porque isso significa que o espaço tem uma visão de reciprocidade em relação a mim. Eu reconheço o espaço como parte da minha vida, e ele também me vê fazendo parte da história dele.

O show foi grátis, portanto era necessário chegar cedo pra pegar o ingresso e curtir a fila. Enquanto isso, o Chico - de bermuda e tênis - e Priscila Brigante passavam o som lá no "buracão" que é a mesma Sala Adoniran Barbosa do primeiro show em terras paulistanas.
Como não dava pra ficar na fila e ver a passagem de som, ficamos revezando pra antever um pouquinho do que seria o show completo.
Sete da noite, todos já acomodados, em cima e em baixo, o moço entra todo de preto. Faz um discursinho sobre sua história com o Centro Cultural
e diz que não estava ali para cantar e sim para apresentar Dota Kher, uma cantora alemã, cujo CD ele acabava de lançar pelo seu selo: Chita.
Dota cantou umas três ou quatro músicas dela e terminou sua participação cantando À primeira vista, metade em português e metade em alemão.
Sai Dota, entra Chico. Com outro figurino: camiseta preta de mangas curtas e calça branca com listinhas pretas. Começou com Béradêro, seguiu com os versos do Cantáteis e Moer cana. Em seguida arrasou com Invocação, ousando dizer as palavras que Bethânia em sua gravação, não teve coragem de pronunciar:
Deus dos sem deuses
Deus do céu sem Deus
Deus dos ateus
Rogo a ti cem vezes
Responde quem és?
Serás Deus ou Deusa?
Que sexo terás?
Mostra teu dedo, tua bunda, tua face
Deus dos sem deuses
Taí pra conferir: Invocação
Entre outras, cantou Saharienne e Feixe.
Junto com De uns tempos pra cá, cantou uma música de Zé Ramalho: Adeus segunda-feira cinzenta
E ainda cantou uma nova, uma espécie de marchinha de carnaval: Santos Dumont
Terminou com a já famosa Mama África, claro! E o povo vibrou!
Depois do show fomos pro camarim levando o LP Música da Paraíba Hoje, que contém a primeira gravação do moço: Virgem louca mimadinha. Relíquia que consegui finalmente encontrar na loja Passadisco, de Recife.
Quando aprensentei o LP pro Chico autografar, ele o mostrou pro irmão, Gegê, que já estava no camarim, e ficaram comentando...
Gravou na velha capa do disco, a seguinte dedicatória:
"Ana e Carmem: marcas de mim em vocês e de vocês em mim. Feliz 2008."
Assim foi o 99° show de Chico que assisti em minha carreira de fã.
Agora, rumo ao 100°. Isso vai merecer uma comemoração!

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